A travessia olímpica de Antonio Rosa
A primeira vez que ele segurou um leme tinha sete anos. O passeio de dingue até a Ilha do Presídio, em Porto Alegre, parecia apenas uma aventura de férias ao lado dos primos. Mas ali, com o vento no rosto sob as águas do Guaíba, nasceu um vínculo com a vela que, anos depois, se transformaria em um projeto olímpico.
A história de Antonio Rosa, no esporte, começou sem tradição familiar consolidada. O avô tinha um day sailor na praia, o pai aprendeu a velejar sozinho, mas ninguém havia seguido o caminho competitivo. Ele foi o primeiro, incentivado pelo seu padrasto Cleber Albuquerque, associado do Clube dos Jangadeiros, e por dois amigos da escola. Então, entrou na Escola de Vela Barra Limpa aos oito anos.
Seu lançamento nas competições veio aos 11 anos, ainda no Optimist. “Eu não entendia tudo o que estava acontecendo. São muitas variáveis. Mas já tinha aquela fome de estar na frente”, conta Antonio. A transição para o ILCA 4 foi rápida e logo na sua estreia conquistou o Campeonato Brasileiro, em Florianópolis (2011). Mesmo assim, não ficou muito tempo e subiu cedo para o ILCA 6 e, depois, para o ILCA 7, sempre buscando desafios maiores. Uma das estratégias de Antonio foi pular para níveis mais elevados tecnicamente mesmo que ele não estivesse muito preparado: “Quando tu sobe um degrau e depois volta, tudo parece mais leve. Evolui mais rápido”, afirma o atleta.
A pausa
Entre 2010 e 2017, construiu uma trajetória consistente no ILCA. No entanto, aos 21 anos, decidiu parar, queria experimentar o mercado de trabalho, investir na sua formação em engenharia de produção e testar outros caminhos. Neste período, migrou para o Snipe, e fechou dupla com o seu amigo de infância do Janga, Tiago Brito. Juntos conquistaram o Mundial Sub-21, realizado na Espanha. Ele passou dois anos velejando de Snipe. Mas o tempo afastado do ILCA trouxe perguntas. Durante a pandemia, com 24 anos, encarou a questão que mudaria sua rota: “O que realmente me move?”
Comprou um barco antigo e voltou a competir no ILCA. Nas primeiras regatas, sentiu a resposta no corpo. “É isso que esquenta o coração.” Tinha 25 anos, em 2021, quando começou a desenhar um plano olímpico. A decisão de abandonar a estabilidade como CLT não foi simples, ele tinha economias para se manter por apenas seis meses treinando e competindo.
Não bastasse a coragem para tomar essa decisão, na semana em que pediu demissão, com 27 anos, Antonio deslocou o ombro durante um treino. O diagnóstico indicava cirurgia e um ano afastado, mas ele insistiu e apostou na fisioterapia intensiva. Foi a primeira grande provação, “ou eu sofria pelo esforço, ou sofria pelo arrependimento”, relatou Antonio.
Foi para a Europa, em 2024, para o período de treinos e lá surgiu uma oportunidade de trabalhar como treinador na Sail Coach, uma empresa com base em Valência e Malta. Dividiu o tempo entre dar aulas e treinar para a sua campanha durante quase dois anos.
O ciclo olímpico
Este ano o foco é treinar, ficar bem no ranking e se preparar para 2027, o ano decisivo para entrar nos Jogos Olímpicos. A principal oportunidade de vaga para Los Angeles 2028 será o Mundial de 2027, em Fortaleza. A vaga pertence ao país, depois cabe à Confederação Brasileira definir o representante.
O calendário de 2026 começou com o Campeonato Brasileiro de ILCA 7 em janeiro, o Campeonato Teste do Mundial em Fortaleza e o Campeonato Centro Sul-Americano no início de março. Os próximos desafios internacionais incluem o Troféu Princesa Sofia, em Palma de Mallorca, a Semana Olímpica Francesa, em Hyères, e o Campeonato Europeu, na Croácia. Estes três blocos de disputa acontecem entre março e maio e são etapas fundamentais para pontuação no ranking e para adquirir experiência. Antonio também vai participar do Mundial de ILCA na Irlanda, em agosto. No Brasil, o atleta treina com outros velejadores da Classe, sob acompanhamento técnico da federação. “Treinar em grupo te puxa para cima. Tu testa, compara e evolui”, conta.

A maturidade adquirida fora da vela se tornou aliada. Ele fala em processo, em confiar no plano, em estoicismo. Nem euforia exagerada nas vitórias, nem desânimo prolongado nas derrotas. “Sonhar alto e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho”, diz Antonio.
No fim, a trajetória dele é sobre encontrar um caminho mesmo quando o cenário não está pronto. É aceitar o desconforto em troca de propósito.


